Uma homenagem ao meu pai: um contador de estórias de mão cheia, que trazia em seus contos malassombrados a melancolia da eterna saudade que sentia de Caicó, sua Terra Natal.

sábado, 8 de maio de 2010

A PHANTASMA

Tinha umas histórias das que meu pai contava que me deixava de fato muito assombrado. Entre elas estava a história da Phantasma.
O que eu não imaginava à época, era que essa história em especial era pura invenção do Velho. Fazia parte dos seus repentes. Aqueles momentos em que após tanto falar para a audiência infantil ávida por mais um dose de suspense, ele, já cansado ou com um branco na memória, tirava da cartola um conto inusitado. Foi assim também com a série de histórias do “Duque de Piemont”, a de “Crisálida Aladim”, e outras. Mais isso é assunto pra depois. Só muito mais tarde, já adulto, vim saber dessa tramóia, pois para mim e toda a criançada sentada ao chão em volta daquela cadeira de balanço de onde ele contava as histórias de malassombro, era tudo verdade verdadeira. Afinal que graça teria se tais histórias não fossem de verdade?
Contava ele que lá pelos idos de 1960, em Serra Negra do Norte, município distante uns 40 km de Caicó, um motorista de caminhão e seu ajudante se preparavam para dormir após um longo dia de trabalho.
O caminhão era um daqueles FNM-Alfa Romeo D-9.500. O saudoso “FÊNÊMÊ”. Um caminhão imponente para a época, e estava novinho em folha. Só tinha feito, até então, duas viagens para o Recife. Pertencia a Zé de Ramos, esposo da minha tia materna Terezinha.
Era costume naqueles tempos haver sempre um motorista e um ajudante, geralmente um bom mecânico, que viajavam juntos nas estradas empoeiradas do sertão. E quando paravam para dormir, após rodar o dia todo, um se instalava na boléia, ou se “aboletava”, como se dizia; e o outro armava uma rede nos ganchos laterais da carroceria.
Chegaram a Serra Negra já de noitinha e deixaram para descarregar o caminhão no dia seguinte. Tomaram um bom banho e jantaram ali mesmo na casa do patrão. Como de costume, naquelas noites cálidas, o calor do dia ainda esvaindo-se do calçamento de paralelepípedo, sentaram-se junto com outros trabalhadores nas calçadas em confortáveis cadeiras de macarrão para ouvir e contar “causos”.
Foi ai que alguém contou uma história que ninguém tinha ouvido antes. Era sobre a Phantasma. De fato eles pronunciavam “pantarma”. Um malassombro dos grandes! Que aparecia como um pequenino ponto de luz no horizonte. Tão pequeno que era difícil enxergar no início. Mas que ia crescendo e crescendo à medida que se olhava para ela. Era uma luz espetacular! A pessoa ficava curiosa e quanto mais olhava mais a luz crescia e se aproximava, até chegar bem perto e desabar sobre o pobre coitado.
Muitos caçoaram da história: é um “fogo-fátuo” – diziam. E se riram bastante uns com os outros.
Após outras tantas histórias, e já enfadados do dia aos solavancos do “FÊNÊMÊ”, os dois viajantes resolveram se preparar para dormir. O motorista se aboletou, e o ajudante armou sua rede embaixo da carroceria do caminhão.
Com o esfriar da noite logo pegaram no sono. Se bem que o ajudante, impressionado com a “pantarma”, ficava olhando o fim da rua, como se espreitasse o menor sinal do fenômeno. Estava sugestionado!
Dormiu finalmente. Sono profundo que embala o cansaço do dia. Foi então que pela madrugada com a chegada da cruviana, o ajudante despertou meio sonolento, incomodado com o frio. Aquela visão da rua suavemente iluminada pelas luzes de mercúrio que deixavam sombras entrecortadas no caminho trouxe à sua mente a lembrança da “pantarma”. – Besteira – pensou. – Vai ver era um “relâmpo” que o cabra viu. – pensou alto como se justificasse para si mesmo o medo que sentia.
A rua onde estava deitado sob o caminhão era em declive. De modo que pelo seu ângulo de visão podia enxergar até o final da rua como se este estivesse bem mais próximo do que realmente estava. Também podia enxergar a silhueta do cemitério que se estendia ao longe.
A cruviana começa a incomodar. Embora estivesse bem agasalhado, o vento frio batia embaixo da sua rede e o fazia tremer. Não conseguia mais pegar no sono, como naquelas noites em que o cansaço é tanto que não nos deixa dormir.
Começou a pensar então na sua vida, em como chegara até ali. Mecânico, ajudante de caminhão. Tinha sido um grande avanço para quem tinha saído das brenhas mais isoladas daquele sertão. Sorriu consigo mesmo satisfeito. Amanhã, depois que descarregar as mercadorias, vou poder dormir em casa com minha Etelvina, lá em Caicó – murmurou.
Entre um pensamento e outro, olhou ao longe para o fim da rua, e viu uma luzinha bem pequenininha. Tão pequena que mal dava pra ver. Mas era muito brilhante, de um amarelo intenso.
A luz se movia de um lado a outro da rua, mas não oscilava, não variava em nada.
Que coisa! – exclamou! – Lanterna num é. Se fosse balançava quando a pessoa andasse. Nem lamparina, é muito forte. – matutava ele.
À medida que continuava a olhar para a luz ela ia crescendo e ficando mais intensa e mais bonita. Era linda! Era como se fosse feita de milhares de fogos de artifício de todas as cores. E cada vez mais se aproximava do ajudante que cada vez mais se sentia atraído por ela.
O ajudante, por fim, sentou-se em sua rede, e olhando fixamente na luz que crescia e se aproximava gritou apavorado: Ai meu Deus!... A Pantarma!...
Nesse momento, o motorista que dormia na boléia, sentiu o caminhão tremer com violência. De um pulo levantou-se assustado. Abriu a porta e saltou para fora da boléia.
Só deu tempo de ver o caminhão tombando para o lado, e aquele facho de luz da largura da rua e com mais de dez metros de altura, passar por ele e sumir rapidamente.
Correu para o outro lado da rua a procura do amigo ajudante, e viu o homem gemendo debaixo da carroceria do “FÊNÊMÊ”. Gritando por socorro tentou tirar o companheiro de lá, mas ouviu quando este deu o último suspiro. Estava morto. Esmagado pela carroceria da cintura para baixo.
A rua encheu-se de gente. Foi um alvoroço. E todos perguntavam ao motorista: o que foi? O que foi?
Foi a PANTARMA. – respondeu.
Pois bem, agora imagine uma criança, nos tempos em que não havia televisão e as noites tinham um quê de magia, dormir com uma história dessas.
Lembro que nos agasalhávamos em nossas redes que ficavam coladas umas nas outras, e olhávamos pelas brechas do lençol espreitando qualquer ponto de luz. Se um vagalume passasse alguém gritava: É A PANTARMA! É A PANTARMA!

Um comentário:

José Faustino disse...

Olá, Moa.

Mira imprimiu esse e hoje leu junto ao velho lá em casa. Eu tirei umas fotos. Mais um conto de malassombro que você resgata em seu estilo simples e regionalizado. Valeu.

Continue.

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Entre escombros e malassombros de Moacir Santos é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs.