Uma homenagem ao meu pai: um contador de estórias de mão cheia, que trazia em seus contos malassombrados a melancolia da eterna saudade que sentia de Caicó, sua Terra Natal.

sábado, 23 de outubro de 2010

Tia Adelvina

Não é à toa que chove tanto esses dias

São lágrimas: as que não pude chorar por ti, seja de alegria ou de felicidade, durante os dias de tua vida.

Agora choro na tua morte.

Não pude te conhecer como devia. Minha vida hebréia afastou-me das minhas origens… fiquem como quê sem raízes.

Não pude ouvir tuas muitas histórias de malassombros, teus “causos”, tuas aventuras e desventuras, tuas lamúrias e os teus sorrisos. Nem soube quantas botijas desenterraste… que pena! Não soube quantos fardos de lenha carregaste nas costas, ou quantas pedras de xelita conseguiste catar pelos serrotes do Seridó.

na cozinha

Nem pude te ver labutar junto ao teu fogão de barro, chapa quente que esquentava tua alma e supria a fome dos que dependiam do teu árduo esforço.

Queria muito ter aprendido contigo, mas a vida não deixou. Pude te ver apenas algumas poucas vezes, como que de relance em esporádicas visitas… mas nos faltou a intimidade que aproxima e faz jorrar os encantos da existência de cada um sobre o outro.

Segue teu caminho, Tia… por aqui sigo trilhando a romaria de cada dia no chão pedregoso desse sertão de meu Deus.

Sentirei saudades… a saudade que já existia antes mesmo de partires…

O Barra Nova sentirá tua falta… nas suas cheias, quando vier lamber com suas águas o teu quintal,  perguntará: onde está aquela que tanto rezava para que os céus juntasse suas águas às minhas?!

O Seridó também terá saudades… não te verá mais como desde em menina se banhava em seus poços de estiagem…

O Poço de Sant’Ana, que hoje agoniza, sentirá maior agonia ainda. Lá dentro, bem no meio da furna, o Nêgo D’água e a Cobra Grande se lamentarão por ti.

A procissão de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos seguirá seu caminho tortuoso sem ver teu rosto cheio de fé…

A Catedral de Nossa Senhora de Sant’Ana, em julho não terá a mesma alegria de fé de outrora. Até porque hoje tudo se transformou em Carnaval.

Caicó, a Princesa do Seridó, se foi contigo… hoje tudo é diferente. Mas tua alma é eterna, e Deus em Sua misteriosa Misericórdia há de cruzar nossos caminhos de novo.

Um comentário:

José Faustino disse...

Mais uma vez Moacir Santos mostra toda sua sensibilidade humana, sua alma familiar e nos encanta com uma poesia bela e tocante. Tia Aldevina estará eternizada nessa página, singela e grata homenagem, muito mais do que merecida. Valeu!

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Entre escombros e malassombros de Moacir Santos é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs.