Uma homenagem ao meu pai: um contador de estórias de mão cheia, que trazia em seus contos malassombrados a melancolia da eterna saudade que sentia de Caicó, sua Terra Natal.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Hi...hiiiiiiii... vai pro inferno...

São Luís do Maranhão. Final da década de 60. Naquele tempo a cidade de São Luís já deixara de ser há muito tempo a "Atenas Brasileira", e se transformara em "apenas brasileira". Uma grande ilha (Upaon-Açu) perdida na geografia continental do Brasil, já sem a importância de outrora. O "fim do mundo". O exílio missionário de nossa família. Uma nova fronteira.
Naquela época morávamos no Conjunto Yolanda Costa e Silva, no bairro Ivar Saldanha. Fomos dos primeiros moradores daquele novo conjunto de casas populares. Ao contrário das de hoje, eram casas amplas e com bom terreno. A nossa casa tinha três quartos, sala, cozinha e banheiro. Os três quartos ficavam todos alinhados à direita de quem entrava e davam para um largo corredor lateral, um oitão como se diz. O outro lado da casa era germinada com outra. À frente, um bom e espaçoso jardim sempre bem cuidado pela mamãe, e uma garagem. Não havia muros altos. Quê necessidade haveria de enfear a frente da sua casa como se fosse uma fortaleza? Não precisava. Aos fundos, como a declividade do terreno era muito grande, papai construiu uma laje na largura da casa, e assim tivemos um novo grande espaço que servia de cozinha, copa, e no lugar de nós, os meninos, dormirmos à noite em nossas redes. Abaixo dessa laje, ganhamos dois grandes porões. Ah! que maravilha! Era nosso espaço... lá brincávamos de tudo: o campeonato de futebol de botões; carrinhos de madeira e lata que meus irmãos Zezinho e Tod confeccionavam com maestria tal que dava inveja aos meninos ricos com seus carrinhos de loja automáticos.
Bons tempos aqueles! O dia inteiro pra brincar e estudar; uma ou outra pequena tarefa pra ajudar mamãe, mas na verdade dávamos mais trabalho que ajudávamos; e à noite... ah, a noite! A hora mágica! Era a hora de sentar no chão do terraço, todas as luzes da casa apagadas, e ouvir nosso pai, do alto de sua cadeira de balanço travestida de um trono divino de onde emanavam as deliciosas histórias de malassombro.
Não tínhamos televisão. Alíás que eu me lembre, só tinha tv na casa do nosso amiguinho Ademar, hoje um importante empresário do reagge no Maranhão, nosso querido "superpateta", como o chamávamos então. Por conta disso, a audiência lá em casa era grande. A criançada da vizinhança acorria ansiosa para ouvir as histórias. Eram tantas. Parecia existir um repertório sem fim:  "Sinhá Véia",  " O Duque de Piemont", "Irmão das Almas", "O Gigante de Caicó", "A Phantasma", "O Nêgo D´Água do Poço de Santana", "Crisálida Aladim", "A Cruviana", e tantas outras, incluindo uma série chamada "As Histórias do Véi Silivero", um contador de histórias que existiu em Caicó nos tempos em que meu pai era criança.
Como era bom dormir assombrando!... melhor que o Lexotan ou o Prozac de hoje!
Às vezes papai nos pregava peças. Não sei se para dar um intervalo e descansar a voz, ou se para aumentar o clima de suspense! Porque mesmo nesses intervalos ele não deixava a peteca cair. Não se podia dispersar, o clima tinha que ser mantido.
Lembramos em família esses momentos deliciosos de convívio... hoje damos boas risadas quando relembramos esse particular de nossa infância.
Há um episódio em especial que muito nos delicia, que passo a narrar a seguir.
Tod, nosso irmão do meio, sempre foi o mais afoito e destemido de todos. Aprontava muito... se achava a última espiga do milharal. E não por acaso, vez por outra, nós nos juntávamos para aprontar-lhe alguma.
Certa noite, papai interrompeu a história no auge do suspense: 
Tod, vá buscar água bem fresquinha lá no filtro pra mim que estou com muita sede - pediu ele. Não tínhamos geladeira.
Eu não papai - respondeu. - Tá com medo cabra? Cê é tão corajoso - inquiriu o Velho.
Tá bom eu vou - levantou-se resmungando e tomando o caminho do oitão...
Por aí não, cabra. Quero ver voce ir aqui por dentro de casa - Disse papai. A casa estava completamente às escuras, seria um teste de coragem ir lá nos fundos da cozinha buscar água.
Tod foi então, e deu pra ver que ele ia cauteloso, mas barulhento como se assim pudesse espantar os fantasmas de sua mente, certamente todo arrepiado. Demorou um pouco, todos em silêncio. Deu até pra ouvir o barulho da água caindo no copo. De repente ouvímos um grito horrível: AAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIII...
E em carreira estabanada chega ele com o copo vazio, pois derramara toda a água no caminho. Sofregando, trêmulo, Tod falou gagarejando a papai que estava sentado impávido em sua cadeira de balanço:
Pap...pap...pai... ti...tinha um... uma a... aa... aaaalmaa... atrá....s do... do fi...fifi...iltro. Ela me... me...me di...sse...sse... "hi...hii...hiiiiiiiiiiiiiii... vai pro in...fe...erno!"
Quá...Quá...Quá...Quá...Quá...Quá...Quá...Quá...! Risada geral... A galera não perdoa!...
Papai, sem Tod perceber, correra pelo oitão e se escondera-se atrás do filtro. Se fingiu de alma  cobrindo-se com um lençol branco que não sei se ele já tinha deixado preparado, e correu de volta pra sua cadeira.
Tod, depois de um tempo, entendeu o que tinha acontecido... e se retirou às turras. Logo ele fora cair numa dessas! Quá...Quá...Quá...Quá...!
Assim era nossa infância... feliz e inocente... bons tempos aqueles!

2 comentários:

ana paula disse...

Quanta saudade, Moa.E que precisão na descrição. Consegui me transportar para aquele cenário tão querido. Temos que agradecer a Deus por esse estoque de lembranças felizes da nossa infância, possível em razão da personalidade extraordinária dos nossos queridos pais. Se continuar assim, muito breve poderá editar um livro de contos assombrados. Material tem muito, a julgar pela relação que vc cita.
Parabéns!
Mira.

José Faustino disse...

Muito bom, Moa. Você tem talento. É como Mira diz: vais acabar escrvendo um livro de contos de malassombro. E as ilustrações, então, são o máximo! Muito bacana. Continue a escrever.

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Entre escombros e malassombros de Moacir Santos é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs.