Uma homenagem ao meu pai: um contador de estórias de mão cheia, que trazia em seus contos malassombrados a melancolia da eterna saudade que sentia de Caicó, sua Terra Natal.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Minha bembena

Lá pelos idos de 1930 havia um tropeiro conhecido por Manoel. Era o Manoel Tropeiro. Gente boa, de natureza tosca e empedernida e ao mesmo tempo singela, tipo próprio daquelas bandas do Seridó, onde o sertão impõe limites quase sobre-humanos a quem se aventura por suas brenhas e furnas.

Naquele tempo, o tropeiro era a salvaguarda de muitos comerciantes das cidades sertanejas, e também das famílias que viviam isoladas nos sítios, fazendas e engenhos da região. 
Nos anos de seca, quando a vida se tornava ainda mais difícil, Manoel Tropeiro era um daqueles bravos sertanejos que passava meses embrenhado nas trilhas de burro em busca de víveres que pudessem suprir os vilarejos e as cidades: charque, feijão macassa, farinha, rapadura, tecidos e outros aviamentos. Desde o Vale do Assú, onde podia obter com mais facilidade os produtos de seu comércio, até as cidades e vilas do Seridó: Caicó, Cerro Corá, Acarí, Carnaúba dos Dantas, Jardim do Seridó, Parelhas, etc. 
Toda a região era percorrida por ele meses à fio, em sua solidão acompanhada apenas pela sua tropa de burros bem aparelhados e supridos. Podia ouvir-se ao longe o tilintar dos sininhos que adornavam sua burra Ambrosina, a matrona da tropa. Sua chegada nessas paragens distantes era sempre aguardada com uma ânsia que se traduzia nos olhares lânguidos, de quem pouco tinha para o exercício do escambo que lhes permitissem saciar a fome, mas que se alimentavam da curiosidade com dócil subserviência de assistir aos comerciantes locais e donos de engenho abocanhar boa parte das mercadorias trazidas nos lombos dos burros, restando-lhes esperar que de resto ainda lhes sobrassem um bem que fosse acessível ao menos para enganar suas necessidades básicas de sobrevivência.
Mas o Manoel Tropeiro era desses que sempre se condoia dos menos abastados. E sempre dava um jeito de suprir uns e outros, fazendo amigos por onde passasse. Isso lhe garantia algumas vantagens: salvo-conduto em situações de conflito; poder arranchar em qualquer lugar; e aqui e ali uma companhia feminina que não fosse sua burra Ambrosina.
Alías, esse era o seu fraco: mulheres! O que era de se esperar de quem tinha uma vida solitária e nômade.
Foi numa dessas viagens, se conta, que lá pras bandas de Timbaúba dos Batistas, naquela época ainda parte do município de Caicó, que Manoel Tropeiro arranchou certa noite perto de um pé de oiticica.
Era uma noite sem lua, mas o céu estrelado conferia uma certa luminosidade que refletia nos granitos dos lajedos, como se as estrelas se multiplicassem no chão, conferindo uma atmosfera de miragens e sombras sobrepostas. Podia-se facilmente vislumbrar visagens que assombrariam os de nervos mais fracos.
Como era seu costume, arranchava cedinho da noite para partir ainda na friagem da madrugada, evitando assim o desgaste dele e dos animais sob o sol inclemente do sertão. Parava também nas horas mais quentes do dia, sempre procurando a sombra doce de um oitizeiro.
Do ponto onde estava arranchado, ao pé da fogueira de pedras e braseiro, podia ver o contorno serpenteante do riacho Tapuio, afluente do Piranhas, em sua agonia de sobreviver naquela aridez sertaneja. 

Seus pensamentos divagavam entre a fome e o cansaço, e a obrigação de cuidar de seus fiéis animais de carga. Entre um pensamento e outro se imaginava embalando-se ao som de uma sanfona e zabumba rodopiando uma linda e "perfumosa" morena em seus braços. Ah! - pensava o solitário tropeiro - daria tudo pra ter uma morena agora comigo!
Mal acabou de fugir-lhe esse pensamento, ouviu um som familiar e bem-vindo. Um som que viajava a galope, amplificado pela vastidão daquele vale: o resfolegar de uma sanfona, o repicar de um triângulo, e a inconfundível marcação da zabumba. Um forró? - pensou...- deve estar longe! - ele sabia quantas léguas distantes poderia viajar aquele som.
Terminou de comer sua carne assada na brasa... tomou um caneco de café bem forte... pegou seu alforje e tirou de dentro um pedaço de fumo em rolo... começou a picar o fumo pra fazer um cigarro sentado em sua rede armada entre os galhos do oitizeiro.
O som convidativo continuava a chegar aos seus ouvidos... quase podia vê-lo serpenteando como o riacho à sua frente. Foi nessa hora que pressentiu aquele vulto se abaixando para entrar sob as frondes da oiticica. Que susto! Não podia acreditar! Ali, na sua frente... num vestido branco cheio de brocados e rendas típicas da região... aquela morena... olhos rasgados... cabelos longos e lisos descendo pelas costas até o tronco... uma mistura típica de raças índias e negras que se fundiram na história do lugar...
Boas noite, moço! Posso me achegar? - exclamou.
Ãh! cacaclaro - gaguejou meio sem jeito. - Se achegue aqui perto do fogo - completou.
Ainda titubeando do susto, levantou-se a arrastou um pedra achatada para a moça assentar-se. Sem dizer uma palavra serviu-lhe uma caneca de café, sentou-se em sua rede, e contemplou aquela belezura de mulher à sua frente banhada pelo bruxulear das pequenas labaredas que chispavam da fogueira de pedras.
A moça tá sozinha nessas parage? - disse se esforçando pra se mostrar calmo, agitado que estava em seu íntimo.
- respondeu ela. - tô indo pra festa lá pras bandas da fazenda Timbaúba. - completou com uma voz macia e insinuante. - O moço não quer ir comigo? - perguntou com aquela voz que penetra nos sentidos mais primitivos da alma dos homens, quase uma convocação.
Manoel Tropeiro sentiu o impacto daquele chamamento atávico. Não podia resistir, embora estivesse ensimesmado da presença daquela moça tão bonita andando sozinha por aquelas bandas. Ficou matutando uns segundos que pareceram uma eternidade... Então falou: a môça tão bonita assim não tem companhia pra ir a uma festa?
É uma festa de casamento. Vai ser muito bom! E o lugar aqui é pequeno, uma casa aqui outra ali... e os moço essa época tão tudo buscando trabalho por aí afora! - respondeu com um certo ar de tristeza, como se uma lembrança ruim assolasse seu pensamento.
Manoel Tropeiro notou seu olhar cabisbaixo e levantando-se da rede como para disfarçar que tivesse percebido sua tristeza repentina, esticou os braços e pernas e caminhou até fora da copa do oitizeiro.
A moça seguiu-lhe os passos. Manoel Tropeiro esticou a vista na direção do som e pode ver bem distante um vulto ou outro de pessoas caminhando na trilha do riacho. Ouviu murmúrios, às vezes gargalhadas viajando pelo vento em sua direção, e atinou que devia ser isso mesmo: havia uma festa em algum lugar, e aquela moça bonita e solitária estava a caminho de lá! Sorte sua, pensou.
Nesse instante, a moça que estava logo atrás dele, tocou-lhe os braços suavemente e segurou-lhe a mão sem dizer nada. Ele sentiu um arrepio gélido a percorre-lhe a espinha, e o farfalhar de um hálito estranho a roçar-lhe a nuca, como se fosse o prenúncio da cruviana.
Não teve tempo de refletir sobre isso. A môça passando à sua frente, abraçou-lhe fortemente e o beijou com sofreguidão. Pobre Manoel! Baixou completamente a guarda e se deixou levar pelo ímpeto de aplacar sua solidão entregando-se loucamente àquele frenesi Nem ao menos sabia o nome da moça, mas que importava? Entre um beijo e outro murmura ao seu ouvido: "minha bembena... minha bembena"
Amaram-se ali mesmo, sob o tilintar das estrelas. Só uma coisa era estranha para ele: sentia muito frio, mesmo com toda aquela atividade frenética. Mas ele imaginou que era apenas o frio da noite que os envolvia naquele lajedo aonde haviam deitado.

Após um tempo, sentaram-se os dois ainda abraçados e a moça murmurava com uma voz meio espremida nos ouvidos dele: "minha bembena... minha bembena" .Era como se  caçoasse amorosamente dele, criando uma intimidade típica dos amantes que se alcunham mutuamente. Ficaram assim por um tempo, sentados e abraçados, murmurando um ao outro: "minha bembena... minha bembena". Daí em diante, só era assim que se tratavam. Um nunca soube o nome do outro. Que importava se eram um para o outro apenas "minha bembena", ou "meu benzinho", no seu dialeto de amor.
Finalmente se puseram de pé. Ele apressou-se em selar sua mula mais veloz e partiu com ela na direção do som festivo que lhe invadia os sentidos. Não era muito longe dali, apenas uma légua, segundo ela lhe dissera. 
De fato, em meia hora de cavalgada chegaram ao lugar. Estava tudo iluminado por muitos candeeiros a querosene. Fogueiras no terreiro. Gente dançando. Outros cuidando da festa: servindo bebidas, assando bodes e carneiros. A casa da fazenda era enorme. Cercada de alpendres erguidos em granito, pé direito alto, muitas janelas e portas trabalhadas em madeira de lei.
Manoel Tropeiro nem percebeu em sua euforia que jamais tinha visto aquele lugar. Ele que era tão acostumado a andar por aquelas bandas. Aquele casarão tão suntuoso! Pensou apenas levemente que talvez não conhecesse tão bem a região como pensava. Vai ver os donos do lugar eram servidos por outro tropeiro, e afinal, não é bom para sua profissão fuçar onde outro colega trabalha.
Mas vez por outra, o Manoel se pegava matutando. Tinha a impressão de que as pessoas lhe ignoravam. Tudo bem! Ele era um estranho mesmo! Mas não era um comportamento típico das pessoas simples do sertão, divagava ele.
Também notou que as pessoas dançavam como se não tocassem no chão! Que coisa?! -  pensava ele. - deve ser efeito da bebida, devo ter passado da conta.
Lá pelas tantas entrou alguém zunindo a galope pelo pátio. Apeou do cavalo. Achegou-se ao dono da festa: um homem alto, branco, bigode bem acentuado, de cabelos lisos e curtos, meio agalegado, como se diz na região.
Houve uma certa agitação seguida de uma comoção geral. Falava-se aqui e ali. O noivo, que até então Manoel nem havia notado, pois estava distraído com a festança, entrou correndo e chorando para dentro do casarão. Seguiu-se um silêncio sepulcral e a ordem: a festa acabou! Não vai haver mais casamento!
Imediatamente toda a família se retirou. Fecharam-se as portas do casarão, e as pessoas atônitas e aos cochichos começaram a ir embora. Como num passe de mágica, já não havia ninguém, nem música, nem murmúrio algum. Apenas Manoel Tropeiro ainda aturdido e sua companheira estavam de pé abraçados.
A moça então sussurrou-lhe aos ouvidos: a noiva morreu! Foi encontrada enforcada debaixo de um pé de oiticica. Parece que um tropeiro errante mexeu com ela, e ela, desonrada se enforcou.
Aquilo soou como um tiro de bacamarte na cabeça do Manoel. Cabisbaixo, tomou sua amada pela mão, montou na sua mula com ela à garupa, e voltaram para seu acampamento.
Lá chegando, e ainda chocado e entristecido pela história que vivenciara, abraçou ternamente sua amada. Choraram juntos e se amaram loucamente entre juras de amor eterno, sussurrando um ao ouvido do outro: "minha bembena... minha bembena".
Cedo da manhã, ainda escuro, Manoel Tropeiro acordou sentindo um cheiro estranho, e como se algo lhe perfurasse as costelas. Estava abraçado a um esqueleto vestido com trapos de brocado e rendas.
Deu o grito de horror que foi ouvido ao longe pelos habitantes da região: Ai meu Deus! Santa Virgem Maria!

Levantou-se de um pulo só. Um dos braços da caveira voou longe. Montou a primeira mula que viu, e saiu em disparada no escuro da noite! Atrás dele, uma caveira estalando os ossos corria e gritava: "minha bembena... minha bembena. Não me deixe! Não me abandone! Voce prometeu me amar para sempre!"
Em sua corrida desenfreada, e perseguido pela caveira, Manoel Tropeiro passou pelo casarão onde estivera na festa. Só havia ruínas. Escombros de um passado distante.

Conta-se que até hoje, nas cercanias de Caicó e Timbaúba dos Batistas, em certas noites de maio pode se ver um homem à galope em uma mula, com um olhar feito louco. Parece que a mula nem toca o chão quando cavalga. 

E se a pessoa for corajosa mesmo e esperar um pouco mais vai ver uma caveira passando correndo, estalando todos os ossos e gritando: "minha bembena... minha bembena. Não me deixe! Não me abandone! Voce prometeu me amar para sempre!"
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Um comentário:

José Faustino disse...

Minha Bembena! Que saudosa lembrança da nossa infância aos pés do Rev.Faustino contando essa e outras tantas histórias de malassombro! De noite au tinha pesadelos. Mas, danem-se os psicólogos... hoje o que ficou foi essa doce recordação de uns tempos sem TV, mas com muita comunicação na família.

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Entre escombros e malassombros de Moacir Santos é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs.