Uma homenagem ao meu pai: um contador de estórias de mão cheia, que trazia em seus contos malassombrados a melancolia da eterna saudade que sentia de Caicó, sua Terra Natal.

sábado, 24 de abril de 2010

Irmão das Almas

Foi na época da farinhada, lá na Fazenda Cabrinha de Azevêdo em Carnaúba dos Dantas, há muito tempo atrás, que apareceu um sujeito solitário e trabalhador que era danado! Mostrou-se também um cabra valente, sem medo de nada, mesmo de coisas do outro mundo. Chamava-se Severino.
Era comum durante a farinhada que todos os parentes e empregados disponíveis ajudassem na tarefa. A isso chamava-se ajutório. Isso porque fazer farinha não era a atividade principal da fazenda. O grosso das atividades era o cultivo do algodão mocó e ainda um pouco de criação de gado que vinha desde os tempos remotos da colonização do Seridó, mas que aos poucos vinha sendo recentemente substituída pelo "ouro branco" da caatinga. Esse sim, o algodão mocó, dava todo o lucro da fazenda. O resto, cana, rapadura, melaço, o feijão ligeiro e o milho de sete semanas, e outros produtos da roça eram só para a subsistência.
 Tanto que depois de descascada e limpa, a mandioca era transportada para a Fazenda Antônio de Azevêdo onde havia uma casa de farinha rústica.
O trabalho era duro! Garantir suprimentos para todo o ano era essencial naquela época e naquelas paragens distantes cuja ligação com o mundo exterior dependia quase que exclusivamente de tropeiros. Assim toda a ajuda era bem-vinda. E a chegada daquele forasteiro bem disposto ao trabalho pareceu uma dádiva dos céus.
O dia começava cedo, antes mesmo do amanhecer. Lá pelas nove horas parava-se para o almoço. Esse geralmente era composto de feijoada, farinha, rapadura, frutas e café. Retomava-se em seguida o trabalho que só era interrompido por volta da duas da tarde para o jantar. Já de noitinha havia a ceia, onde era servida poções generosas de coalhada.
Naqueles tempos era comum a figura do contador de histórias. Pessoa contratada para animar os trabalhadores reunidos na árdua tarefa de lavar e descascar a grande quantidade de mandioca colhida para fazer a farinha. Chamava-se Zé Romão. As histórias eram de todo tipo, desde que seu conteúdo respeitasse a audiência familiar. Mas das que eram mais apreciadas estavam as histórias de malassombro, especialmente quando contadas à noitinha durante a ceia e depois dela, pois era comum que muitos trabalhadores continuassem por alí mascando seu fumo e pitando, recostados pelos cantos, enquanto descansavam da comilança da ceia.
Numa dessas noites, quando a friagem do sertão começava a substituir os vapores sufocantes do calor do dia, Zé Romão começou a falar de um certo funeral misterioso que acontecia de quando vez lá pelos baixios da várzea do Riacho Carnaúba. Contava ele que nas noites de lua nova, lá no meio dos carnaubais ainda comuns naquela época, aparecia umas pessoas carregando nos ombros um caixão. Levavam tochas acesas para alumiar o caminho, que se podiam ver do lugar onde estavam agora.
No meio da noite ouvia-se um grito alto e longo, soando como se estivesse bem longe, e carregado de um eco sinistro: CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!
 Passava-se um tempo e a voz continuava: CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!... E assim continuava noite adentro até que aquele cortejo fúnebre sumia entre os carnaubais. Assim como aparecia ia embora. Ninguém sabia dizer nada à respeito. Uns poucos trabalhadores que se aventuraram a ir lá saber alguma coisa jamais retornaram para contar a história. Era um mistério que se repetia de tempos em tempos.
Severino, valente que era, terminou de ouvir aquela história com toda a atenção e ficou encafifado! Grunhiu então com seu cigarro de palha preso aos dentes: - se isso acontecer enquanto eu tiver por aqui vou lá ver o quê é. Zé Romão olhou pra Severino com um ar de zombaria provocativa e disse: - Home, tu num brinca com essas coisa... tu num sabe nem se é desse mundo...
- Num tenho medo de nada, sô - respondeu Severino.
- E os home que foro lá e num voltaro? - inquiriu Zé Romão.
- Vai vê se cagaro de medo e ficaro cum vergonha de voltar... - falou sorrindo Severino, o que provocou uma gargalhada geral de todos.
- É... cê que sabe... eu é que num quero saber dessas coisa de alma do outro mundo... - retrucou Zé Romão. - Num é bom mangar dessas coisa, não... - completou.
Depois disso fez-se silêncio, e aos poucos todos se retiraram para dormir.
Passou-se o tempo...
Certo dia, quando todos se preparavam para a ceia e já se fazia escuro, alguem chamou a atenção de Severino apontando na direção dos carnaubais. 
- Olhe, veja ali... - apontou.
- Num acredito... Vige Nossa Senhora de Santana! Então é verdade! - exclamou Severino em voz alta chamando a atenção de todos.
As pessoas saíram todas para fora e olharam na direção da várzea do Carnaúba. Lá estava: aquele cortejo fúnebre seguindo entre os carnaubais. Tochas acessas, e nos ombros de quatro homens um esquife. Dava pra ver direitinho... À frente do cortejo um homem gritava com uma voz que parecia sair de uma gruta: CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!...CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!...
E agora? Que fazer? Ficaram todos atônitos, como se tomados de uma paralisia que gelava do cucuruto até o dedão do pé.
E a voz continuava enquanto o cortejo seguia devagar: CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!...CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!...
Foi então que algum espírito de porco falou com certo desdém desafiador: - E aí, Severino. Tu num é cabra macho que não tem medo de nada? Vai lá...
 A voz continuava: CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!...CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!...
Aquilo parecia entrar direto no juízo! Severino sentiu um arrepio, e ao mesmo tempo um desejo irresistível de ir ao encontro daquele funeral. Não sabia explicar, mas era como se aquele chamado do outro mundo fosse para ele. CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!...CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS!...
Vou lá - disse o forasteiro. - Tu é doido home?! Sabe lá que coisa esquisita é aquela?! - exclamou alguém.
 Eu vou... Nossa Senhora de Santana me acompanhe! - respondeu ele.
Sem se importar com os avisos, Severino empertigou-se, ajeitou o facão na cintura, enrolou um cigarro de palha com a maestria de quem faz isso várias vezes ao dia, se benzeu e partiu na direção do baixio sem olhar para trás.
As pessoas acompanharam Severino com o olhar. Viram quando ele atravessou o vau do Carnaúba e adentrou os carnaubais. Viram ainda quando se aproximou do cortejo fúnebre. E aí, tudo sumiu! As tochas se apagaram... a voz parou de gritar... fez-se um silêncio aterrador. Severino nunca mais foi visto por aquelas bandas.
Alguns homens ainda foram lá no outro dia pela manhã. Mas nem sinal de Severino. Nada...
Mandaram avisar o delegado de polícia em Caicó contando o ocorrido. O delegado chegou a mandar um pequeno destacamento para vasculhar o local. Mas nada. Severino sumiu para sempre. Sem deixar rastro.
Durante muito tempo Zé Romão continuou contando essa história por aquelas bandas. Agora com a autoridade de quem tinha presenciado o fato.
Passaram-se os anos. Pelo menos uns dez anos. Certo dia chegou à Fazenda Cabrinha de Azevêdo um tropeiro vindo do Recife. Fazia sempre aquele chão. De Recife descendo pra Goiana ainda em Pernambuco, adentrando então o sertão da Paraiba até alcançar a região atualmente chamada Baixa da Nega, onde nasce o Rio Acauã, seguindo daí o seu curso natural, passando por onde recebe os afluentes  Totoró, Mulungu e  por fim o Carnaúba, já na região do Seridó.
Chegando na fazenda, numa noite quando ouvia o Zé Romão, já velho e alquebrado contar a velha história de Severino, o Irmão das Almas, disse para espanto de todos: - Ah! O Severino? Encontrei com ele em Recife faz dois anos. Tá rico que só a molesta!
Todos os presentes ficaram abismados!
Como assim? - Retrucou o Zé Romão com a voz cansada, mas eufórica.
- Tá lá em Recife. Rico pra daná! Tem uma loja de aviamentos lá na Rua das Calçadas- confirmou o tropeiro.
- Ele me disse que quando seguiu o cortejo fúnebre, chegou junto aos homens que carregavam o caixão, e perguntou de quem era o enterro. Ninguém respondeu nada. Apenas olharam pra ele com um olhar distante como se não vissem nada. - falou.
- E aí? - perguntou alguém.
- Ele achou aquela gente estranha... esquisita... Pareciam não ser de carne e osso. - respondeu o tropeiro.
- Eita danado! Que apuro! - exclamou o Zé Romão. - Continua, tá me deixando nervoso. - pediu.
Apoi!... Entonces ele disse que teve vontade de correr, mas em vez disso criou uma corage que não sabe de onde veio, se aproximou do esquife, e pediu para um dos homens que carregavam o caixão pra ele levar um pouco também. - continuou o tropeiro. - Entonces o home cedeu o lugar pra ele, e ele continuou carregando o caixão um tempão. Ninguém falava nada. Foi aí que chegaram debaixo de uma imbaúba e o cortejo parou. Os home cavaram uma cova. Levou um tempão, tudo em silêncio, sem palavra... Enterraram o defunto... e aí aconteceu uma coisa que deixou ele gelado. - contou o tropeiro, dando uma pausa que pareceu uma eternidade.
- Fala logo home, desembucha - atalhou Zé Romão com ansiedade.
- Calma, agora que é o bom - retrucou o tropeiro com um riso maroto no canto da boca, continuando em seguida:
- Severino viu o home que vinha antes na frente do cortejo se virar pra ele e dizer com uma fala esquisita: "como tu não tiveste medo e mostraste ser um varão piedoso e Irmão das Almas, cá está tua recompensa. Cavas onde está enterrado o finado e acharás uma botija com muitas moedas d'ouro. Peço-te, todavia, uma cousa a mais. Que mandes rezar uma missa na Matriz de Santana em Caicó, em favor dest'alma que vos fala. Mas não revelais meu nome a mais nenhuma outra pessoa, a não ser o vigário de Santana.".
Depois disso, conta Severino que tudo sumiu como por encanto. - continuou o tropeiro. - Ficou tudo escuro de meter medo. Então ele tirou do seu imborná uma pederneira. Juntou um pouco de folhas secas e fez uma fogueira. Pegou seu facão da cintura e cavou... cavou... cavou... até bater numa superfície dura. Terminou de desenterrar a botija com as mãos e quase caiu de costas quando viu o tanto de moedas de ouro. Arrumou tudo direitinho fazendo um jirau com pedaços de pau que cortou para poder arrastar aquela botija enorme. Andou sem descansar por umas duas horas no rumo de Caicó. Foi então que parou pra descansar debaixo de um oitizeiro. Quando o dia amanheceu, continuou a viagem para Caicó. Quando chegou lá, foi direto para a Matriz de Santana e encomendou uma missa especial ao vigário. Pagou tudo, se hospedou num hotel e na hora da missa veio assistir. Depois foi-se embora de vez no rumo do Recife. É isso - concluiu o tropeiro.
Ouvindo aquela história fantástica todos ficaram assombrados e ao mesmo tempo espantados com a coragem e o destino do Severino. Cada um queria dizer uma coisa. Falavam ao mesmo tempo.
No meio do burburinho que se formou ouviu-se de rrepente uma voz lânguida e fantasmagórica que cortava os ares: CHEGA IRMÃO DAS ALMAS... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS...
Correria... alvoroço... com os cabelos em pé todos olhavam no rumo do Riacho Carnaúba. Lá estava... aquele cortejo fúnebre guiado por um homem ou seja lá o que fosse gritando aquela frase sepulcral: CHEGA IRMÃO DAS ALMAS... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS... CHEGA IRMÃO DAS ALMAS...
Segundo se conta, não ficou ninguém. Foi uma correria geral... Um Deus nos acuda... Diz-se que tem gente correndo até hoje fugindo desse malassombro.

2 comentários:

José Faustino disse...

Rapaz, que maravilha de texto! Muito massa! Você é 10! Dez, não, 100! Cem não, MIL! Parabéns!

Leticia disse...

Tio, que legal!
Tive poucas oportunidades de escutar e ver vovô contando estórias como estas, me faz lembrar as idas à São Luís, quando eu era pequena! Vc tem muito talento!!! Parabéns!
Bjos,
Let.

Licença Creative Commons
Entre escombros e malassombros de Moacir Santos é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs.